Precisamos falar sobre SUICÍDIO!

suicidio

O suicídio é um tema muito sensível por diversos motivos. Por isso tentarei ser cauteloso ao escrever sobre ele (por respeito) e peço atenção e respeito para os leitores que se interessarem por essa leitura.

Esse é um tema que me desperta particular interesse, pois na realidade clínica psicológica/psiquiátrica ele está presente a todo momento, fazendo com que os profissionais necessitem conhecê-lo a fundo.

Esse interesse me levou a fazer uma grande pesquisa a respeito do tema, que acabou virando um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

Devido as discussões atuais a respeito do tema, principalmente em razão de uma série (“13 Reasons Why”) que trata sobre ele (no momento vou focar no tema, sobre a série nós vamos falar em outra ocasião), me senti compelido a escrever e tentar esclarecer um pouco a respeito do suicídio.

Minha intenção é tentar demonstrar os caminhos que devem levar uma pessoa a buscar ajuda, mas, para isso, preciso explicar o tema primeiro.

AFINAL, PORQUE OCORRE O SUICÍDIO?

O suicídio é um tema sério, complexo a muito abrangente. Primeiramente temos que esquecer aquela história de que quando alguém tenta suicídio (sem sucesso) “fez para aparecer/chamar atenção” ou “se arrependeu”, e, principalmente, jamais devemos pensar na questão julgando o outro como “fraco ou forte” (a frase “o suicídio é para os fracos” é muito comum, mas infundada). Devemos ter uma visão mais refinada sobre o assunto (saindo da superficialidade).

As coisas são um pouco mais sérias e complexas do que possam parecer.

O suicídio é um tema amplamente estudado (por filósofos, sociólogos e afins) assim como a própria morte que sempre despertou o interesse dos filósofos. Ou seja, há muito interesse em saber os motivos que levam uma pessoa a tirar a própria vida.

Não existe uma razão ou um consenso sobre o tema. O que nós temos são ótimos estudos científicos que podem nos auxiliar a compreendê-lo

Para entender um pouco sobre o suicídio, precisamos falar sobre Émile Durkheim (sociólogo francês que tem os trabalhos pioneiros a respeito do suicídio). Por ser um sociólogo, ele estudou o suicídio em um contexto social, descrevendo o suicídio em três tipos: Suicídio Egoísta, Suicídio Altruísta e Suicídio Anômico.

Em resumo, esses três tipos correspondem a:

O Suicídio Egoísta é aquele que acontece quando a pessoa se desvincula da sociedade. Ou seja, a sociedade não tem mais valor para a pessoa, ela se distancia e, assim, as regras e leis não se aplicam mais a ela. Isso permite que a pessoa cometa o suicídio. Seria o suicídio cometido pela pessoa que deixou de ter um contato saudável com a sociedade, não se sentindo parte dela, e, assim, não percebendo motivo para preencher a sua vida e continuar vivendo.

O Suicídio Altruísta é o oposto do Egoísta. Nesse caso a pessoa está tão envolvida com o social, que pode haver uma “exigência” ou aceitação por parte do outro que ela morra e então ela o fará (como se fosse um ato altruísta). Está inteiramente ligado às crenças das pessoas (pessoas que se suicidam por motivos religiosos, por exemplo, e é aceito socialmente que elas o façam ou por crenças em que pessoas acreditem que esse é o melhor caminho).

E por fim, o suicídio Anômico que acontece em relação às crises (das mais variadas formas possíveis). Chama-se anômico (que vem da anomia = falta de regras) pois é proveniente de acontecimentos que fazem com que a vida da pessoa fique “desregrada”. Um exemplo disso seriam as “crises financeiras” ou “crises de perda”, enfim, tudo o que traga uma mudança brusca na vida do indivíduo (crises financeiras, morte de cônjuges, divórcio e afins).

Essas classificações demonstram que geralmente há um motivo por trás do suicídio, que deve ser compreendido nas suas três razões.

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Há também os trabalhos do psiquiatra e psicanalista americanos Karl Meninger, que afirmou que no suicídio há pelos menos três elementos envolvidos: o desejo de matar, o desejo de ser morto e o desejo de morrer.

Para esse autor o suicídio é uma tentativa de fuga de uma situação de vida intolerável, sendo que existem impulsos internos (inconscientes) que levam a pessoa a tirar a própria vida (como uma dificuldade de ajustamento à realidade externa, que cria pressões e tensões dolorosas e, às vezes, intoleráveis).

Ou seja, de acordo com o psiquiatra e psicanalista, em todas as pessoas há o desejo de viver e o desejo de morrer (instinto de morte e instinto de vida), que são forças que brigam constantemente. O suicídio ocorre quando o instinto de morte vence prematuramente (por uma falha do instinto de vida), que deve ser considerado excepcional, sendo uma alteração no processo de viver.

Essas são algumas visões a respeito do tema apenas para que possamos conhece-lo um pouco melhor.

O QUE FAZER PARA PREVINIR O SUICÍDIO?

Como ficou claro, todos nós podemos ter pensamentos suicidas, desejo de deixar de viver ou desaparecer. Isso é algo comum. O que diferencia é a quantidade desse desejo, os motivos e a frequência desses pensamentos.

Quando acontece algo que nos abala fortemente, é comum que tenhamos pensamentos negativos no sentido de “não existir mais”. Mas isso é diferente da vontade de tirar a própria vida.

O que é importante saber é que o ato do suicídio geralmente está relacionado com alguma outra dificuldade. Ou seja, o suicídio está relacionado com a depressão, com transtornos psiquiátricos (como a esquizofrenia, transtornos de humor, etc.), com o alcoolismo e outros.

A melhor forma de prevenir o suicídio, então, é o tratamento precoce das dificuldades que estão relacionadas a ela. Estudos comprovam que apenas 3,2% dos suicídios ocorreram com pessoas sem nenhum diagnóstico clínico, porém 35,8% estavam relacionadas a transtornos de humor, 22,44% relacionados com uso de substâncias (como drogas e álcool).

Se você pensa a respeito do tema com muita frequência ou conhece pessoas que falam muito sobre isso. Talvez seja interessante buscar ajuda.

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Outra coisa que nós devemos ter em mente é que o suicídio não pode ser um tabu! Nós precisamos falar sobre o tema. Quando falamos sobre ele e deixamos que outras pessoas também falem (sobre os desejos, tristezas e até sobre a vontade de tirar a própria vida) nós não estamos incentivando o outro a cometer o suicídio, muito pelo contrário, nós estamos “botando para fora” as nossas dores. Tentando superar nossos problemas.

A coisa mais importante que podemos fazer é nunca julgar as pessoas que passam por dificuldades. Precisamos estar sempre abertos para ouvi-los, tentando auxiliar da melhor maneira possível.

Todos nós estamos sujeitos a sofrer e a passar por momentos de dificuldades. Sofrer faz parte do processo de viver. Por isso, nunca menospreze o sofrimento do outro. Tenha em mente que o outro não é diferente de você e que, assim como ele, você também poderá passar por dificuldades e pensamentos negativistas de morte.

Portanto, no lugar de julgar o outro, que tal fazer o possível para auxiliá-lo? (muitas vezes alguns momentos de escuta podem ser essenciais).

E AS PESSOAS QUE AMEAÇAM TIRAR A PRÓPRIA VIDA?

Quando as pessoas começam a falar sobre tirar a própria vida, nós devemos acolher e tentar conversar sobre o tema, mas principalmente devemos demonstrar que estamos dispostas a ajudá-las!

Isso significa entrar em contato com profissionais adequados para ajudar nessas situações. Os profissionais da área da saúde, como psiquiatras e psicólogos, estudam o tema para lidar com ele da melhor maneira possível a fim de realmente ajudar as pessoas.

Por isso, é interessante orientar a pessoa a entrar em contato com algum desses profissionais para que elas realmente possam ser ajudadas. Esses profissionais serão capazes de compreender o caso e perceber a real probabilidade de a pessoa tirar ou não a própria vida, além de tratar os problemas que estejam relacionados com esse desejo de morrer.

Sempre lembrando que todos temos um papel fundamental na vida do outro e que a nossa presença e entendimento correto da situação também é uma das formas de auxílio!

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MAS E SE A PESSOA TENTOU SE SUICIDAR (SEM SUCESSO)?

Precisamos saber que na maioria dos casos de suicídio já havia uma tentativa anterior por parte da pessoa. Ou seja, não é somente porque a pessoa não conseguiu, que ela nunca mais irá tentar.

Nesses casos a ajuda e o auxílio de profissionais da área da saúde se torna ainda mais necessária.

Lembrando que a melhor ajuda é evitar os comentários maliciosos e pejorativos (isso acaba acontecendo em muitos casos), pois eles apenas aumentam o sofrimento dos envolvidos (tanto da pessoa quanto de seus familiares).

Respeitar a pessoa e os familiares é tão importante quanto buscar ajuda, mas nesses casos a ajuda de profissionais da área da saúde é obrigatória.

E QUANDO O SUICÍDIO JÁ OCORREU?

Quando há a noticia de suicídio em uma comunidade, isso geralmente comove as pessoas, sendo comentado amplamente por muitos. Se, infelizmente, o ato aconteceu, cabe a nós respeitarmos a família e evitar ao máximo julgar (tanto quem cometeu o ato, quanto os familiares).

A família e amigos no fim são quem realmente sofre, pois eles são os que “ficaram”. Portanto, não devemos procurar por culpados ou “descobrir” os motivos para o que aconteceu. Nós devemos demonstrar que compreendemos a complexidade do assunto, respeitando os familiares e dando o máximo de apoio possível.

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Nunca devemos nos diferenciar deles e tratar o assunto como um bicho de sete cabeças. Devemos respeitar o acontecimento (e principalmente a perda da família), e ajudá-los no que for possível nesse momento.

Se formos conversar sobre o tema com os outros, essa conversa deve ser feita de uma forma produtiva, a fim de prevenir que isso aconteça novamente na comunidade, e não julgando quem cometeu o ato.

Comentários pejorativos apenas ajudam a aumentar o tabu a respeito do tema. Nós precisamos contribuir para que os casos diminuam, ou seja, devemos ter conversas construtivas a respeito do tema, sempre buscando mais informações.

Além de exigir uma melhor capacidade dos profissionais da área da saúde (mesmo os que não estão envolvidos diretamente com o tema) para que consigam lidar com esse tema. Por exemplo, um Agente Comunitário [do Posto de Saúde] ou um Assistente Social também podem se deparar com esse tipo de tema.

Quanto mais informações tivermos sobre o assunto, mais estaremos preparados para lidar com ele, sejamos profissionais da área da saúde ou não. Afinal, a comunicação também tem papel importante nesse tema, pois como visto, também tem motivos sociais.

Se você quiser conhecer mais a fundo a respeito do tema, recomendo esses livros:

DURKHEIM, Émile. (1897). O Suicídio: estudo de sociologia. Tradução sob a direção de Monica Stahel. São Paulo; Martins Fontes, 2000.

MENNINGER, Karl. (1938), Eros E Tânatos: O homem contra si próprio. Tradução sob a direção de Aydano Arruda. São Paulo: Ibrasa, 1970.

FONTENELLE, Paula. Suicídio: O futuro interrompido. São Paulo: Geração Editorial, 2008.

E esse Manual do Ministério da Saúde:

BRASIL. Ministério da Saúde. Prevenção do suicídio: Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Organização Pan-Americana da Saúde; Universidade Estadual de Campinas. Brasília: [s.n.], 2006
Disponível aqui.


Leonardo Luchetta378 Posts

Escreve artigos para a internet na metade do tempo. Na outra metade se prepara para tornar-se psicólogo clínico. Nas horas vagas, vaga!

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