Você ainda ouve um disco até o fim?

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Eu não achei que fosse, um dia, escrever sobre um novo álbum do Pink Floyd. Mas vamos deixar claro: minha intensão aqui não é escrever uma resenha sobre ele. Há milhões delas pipocando em todos os cantos. Sem falar, é claro, que resenhar um álbum do Pink Floyd não é uma tarefa simples, em especial, o novo disco.

O assunto aqui é sobre a experiência de ouvir música no século 21, especialmente nas grandes cidades. Moro em São Paulo há 6 anos, sou um apaixonado por música, especialmente o rock em seu estado mais bruto. Posso falar com propriedade sobre a experiência de ouvir música em uma metrópole como São Paulo, pois não há um dia sequer que eu fique sem ouvir uma boa música em meio ao caos paulista.

O que eu mais observo são pessoas ouvindo música através de fones de ouvido. Nas ruas, dentro do metrô, dentro de taxis, em livrarias, cafeterias e, principalmente, no ambiente de trabalho. Tirando o taxi, já que geralmente gosto de trocar ideia com o motorista, eu sempre estou de fones de ouvido.

musicmetro2Música cada vez mais em segundo plano, disputando os ouvidos do ouvinte com o barulho do metrô e do trânsito. No final das contas, quem acaba ouvindo um disco por inteiro?

Vale lembrar que ouvir música não era assim tão fácil como é hoje. Era preciso andar com walkman, discman, essas coisas que precisavam de pilhas e não tinham autonomia muito maior que 2 horas. Esse contexto exigia que você ouvisse essencialmente, música dentro da sua casa, no toca-discos da sala ou no microsystem do quarto.

Essa “adversidade” trazia uma coisa que hoje é muito pouco valorizada: apreciar um disco inteiro, do início ao fim, escutando as músicas sem interferências externas. Dedicávamos um tempo do nosso dia pra ouvir música. Pra prestar a atenção nela, ouvir as batidas da bateria, o galopar do baixo, os riffs e solos de guitarra, camadas de teclados e nuances vocais.

Era comum ficar no quarto ouvindo música. Sem distração de smartphone, facebook. Era só você e a música em relação íntima. Era mais fácil se desligar e deixar a música tomar conta de você. Mas parece que a falta de tempo e a “correria” tem feito com que esse tempo que dedicávamos a degustação musical tivesse que passar por adaptações.

endlessA capa do novo álbum do Pink Floyd só não é melhor do que as 18 músicas que fazem parte do disco. Puro deleite!

Não que não ouvíssemos músicas enquanto fazíamos outras coisas. Aliás, esse também é um dos propósitos da música, o de simplesmente preencher espaço. O ponto onde quero chegar é que raramente conseguimos dedicar o mesmo tempo a música como conseguíamos antes. E isso tem feito com que passássemos a conhecer novos artistas e discos de nossas bandas prediletas através de fones de ouvido.

Esse 1º contato com novo material costuma acontecer em meio ao barulho do transito, das vozes que comunicam as estações de metrô, das interferências no trabalho. Tudo rivaliza com a música que está entrando em nossos ouvidos. O artista, que pensa e cria a música em estúdios, levando em consideração todos os detalhes, acaba tendo que competir com tudo isso, acabando em uma playlist genérica de alguém que só escuta música no trajeto até sua casa.

VOCÊ AINDA OUVE UM DISCO POR INTEIRO?

Nada contra, até porque iso sempre existiu. São perfis de comportamento diferentes. A questão é que esse comportamento vem se tornando cada vez mais frequente. E é isso que me preocupa pois ouvir um disco inteiro é coisa rara hoje em dia. Falar em álbum conceito então, que utiliza todas as faixas do disco pra desenvolver um tema, tá virando quase um papo jurássico.

O lançamento do novo disco do Pink Floyd, Endless River, fez com que eu me encontrasse nesse dilema de audição. Assim que o álbum “vazou”, corri pra fazer o download e ouvir ali no trabalho mesmo, usando fones de ouvido. Voltando pra casa, no metrô, segui ouvindo. Minha primeira impressão foi boa. Mas de imediato eu senti que era um disco que não tinha sido feito pra ser ouvido daquela maneira, com interferências externas e fones de baixa precisão.

musicworkSim, ouvir música no trabalho é bom demais. Mas vamos combinar que dar opinião sobre um disco apenas ouvindo as músicas durante o trabalho não rola, né?

No final daquela semana eu cheguei em casa, apaguei as luzes da sala e coloquei o disco pra rodar no som da sala. Em altíssimo e bom som. Pra minha surpresa, acabei conhecendo outro disco. Muito, mas muito mais complexo e agradável do que aquele que eu havia conhecido através dos fones. Era possível ouvir um sons que eu sequer tinha percebido enquanto andava nas ruas. A partir dali eu comecei a me envolver de outra maneira com o álbum.

Atualmente poucos ouvem um disco até o fim. E é comum não dar uma segunda chance. O problema é que as melhores obras não se rendem fácil e raramente se mostram obras primas na primeira audição. Com isso, vamos deixando passar muita coisa boa. E a música cada vez mais vai se tornando algo pra preencher silêncios apenas. O que é bastante triste.

O DISCO NOVO DO PINK FLOYD MERECE TODA A SUA ATENÇÃO

Tudo isso faz com que artistas pensem suas obras como algo mais simples e direto, onde o consumidor possa se identificar imediatamente com o produto e possa emitir uma opinião imediata sobre aquilo. Com isso em questão, será que toda essa facilidade prejudica a obra, como já falei aqui? Será que o MAIS (acesso facilitado a qualquer disco em qualquer lugar) é MENOS (menos qualidade, menos atenção, menos profundidade?).

A propósito, o disco novo do Pink Floyd é sensacional. Dê a ele a atenção que merece. Apague as luzes, aumente o som, beba um vinho e preste a atenção nas sensações que você irá experimentar. São 18 faixas que só funcionam se ouvidas na sequência, pois fazem parte de uma peça única. Depois, tente imaginar como isso teria acontecido se você tivesse com fones de ouvido no trabalho, sofrendo interrupções a todo momento.

As vezes a Snack Culture é interessante porque você passa a conhecer mais coisas em menos tempo, porém, com menor profundidade. Mas, ainda existem coisas que merecem que você realmente GASTE tempo com elas. Quando você identifica quais são essas coisas e realmente dedica tempo a elas, elas te recompensam em dobro. E esse disco do Pink Floyd é uma dessas coisas.

Vá fundo e depois me conta como foi 🙂


Rodrigo Cunha96 Posts

Publicitário, geek, louco por cinema, música, games, livros e boas idéias nas horas vagas e não vagas. Tem medo de fazer compras em NY e beber num PUB de Londres e nunca mais voltar.

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