Confira um “papo de bar” sobre o novo disco dos Titãs

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Dois amigos conversam sobre o novo disco dos Titãs, “Nheengatu”, em um bar de São Paulo, na Rua Augusta:

– É cara, vai ter copa mesmo pelo jeito né? Nem adianta mais ficar falando sobre isso.

– É Dipa. E quer saber? Eu vou torcer para o Brasil mesmo, sem hipocrisia.

– Então cara, muita gente que tá aí criticando a seleção, Felipão, FIFA e tudo o mais e na hora H, vai assistir aos jogos e gritar gol. Falando em gol, tu já ouviu o novo dos Titãs?

– Não ouvi não. Não sei o que tem a ver com gol, mas eu soube que saiu no dia 12 agora e li algo na internet dizendo que esse disco seria meio que um retorno às raízes. Você ouviu?

– Não só ouvi como não consigo parar de ouvir em loop. É um golaço cara, Ficou bom demais …

– Então Dipa, eu ouvi o penúltimo disco deles, o Saco Plásticos, de 2009, aquele que foi produzido pelo Rick Bonadio. Lembra que todo mundo ficou com medo de que o disco tivesse uma pegada mais emo/teen, lembra?

– Lembro sim. Eu ouvi esse disco só uma vez. Mas lembro que não gostei muito e esperava bem mais. Talvez devesse dar mais uma chance. Mas agora não tenho como. Esse “Nheengatu” tá explodindo nas minhas orelhas o dia inteiro.

– Pois é, eu vi esse nome “Nheengatu”. Sabe o que significa?

– Então, li que é uma palavra indígena que significa algo como “língua geral”, uma espécie de compilação feita pelos jesuítas no século XVII, levando em consideração os diversos tipos de dialetos indígenas brasileiros para que portugueses e brasileiros se entendessem.

– Que legal, cara. Seria uma boa se tivéssemos uma língua onde todos realmente entendessem não apenas o significado, mas que as pessoas realmente se entendessem, não é?

– É verdade. E a capa vai nesse conceito.

– É então, eu vi. Ficou linda cara. Tem uma pintura retratando a Torre de Babel. Achei as cores animais.

– Então, é um projeto do Serjão com o design André Rola.

– “Rola”? Puta que pariu, heim? E esse Serjão?

– Porra, J, o Sérgio Britto, cara.

– Ahhhhhhhhhhhh, tá.

– Então, sobre a capa, ela retrata um paradoxo: a Torre de Babel, que segundo a Bíblia, foi construída pelos homens para chegar até o Reino dos Céus, foi destruída pela falta de entendimento entre esses homens durante o processo e a língua Nheengatu, que foi criada para promover o entendimento. Rolam esses dois pontos opostos, cara.

– Rafa agora pagando de cult, heim?

– Porra J, denovo, isso tá no release dos caras e a Torre de Babel é um mito bíblico. O que tem de cult nisso?

– Tá cara, relaxa. To vendo que você tá de copo vazio. Garçom, traz mais uma Original pra gente, por favor? Mas e aí Dipa, como tá o som dos caras?

– Pra início de conversa, o disco não tem nenhuma balada.

– NENHUMA? Nem umazinha, mais calminha e tal?

– NADA, cara. Só porrada na orelha, pegada punk, visceral. São 14 músicas em um tempo total de 37 minutos! E rola até palavrão, coisa que não acontecia há tempo. E o melhor, eles não são gratuitos. Estão lá pra pontuar e enfatizar o que é necessário.

– Opa, isso é um bom sinal. Titãs de volta aos bons tempos?

– J, dá pra encontrar referências fáceis aos álbuns “Cabeça Dinossauro (1986)”, “Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas (1987)”, “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora (1991)” e “Titanomaquia (1993)”. Mesmo assim, tá bem longe de ser um disco retrô, já que temos temas bem atuais e a sonoridade é bem crua, sem sintetizadores ou qualquer outro tipo de apetrecho tecnológico usado na “era Liminha”.

– Aí sim. Você falou da era Liminha. Eu gosto demais da trilogia que ele produziu. Foi o Cabeça Dinossauro, o Jesus não tem dente no país dos banguelas e Õ Blésq Blom, né?

– Esses mesmo, J. Eu também cara, gosto muito dessa trilogia. Não tenho nada contra sintetizadores e a produção do Liminha, muito pelo contrário. Eu até gostaria que houvesse mais um disco com a produção dele. A do Nheengatu ficou nas mãos do Rafael Ramos, lembra dele?

– Hmmmmm … Não é aquele carinha do Baba Cósmica?

– Esse mesmo. Esse cara também é um dos donos da única fábrica de discos de vinil da américa latina, sabia? Ah, e inclusive …. opa, chegou a gelada. Bora lá, um brinde ao rock and roll!

– Uhhhhhh, estupidamente gelada. Delícia. Mas vamos lá, conta mais sobre o disco, Rafa. Qual a pegada das letras, já que o rock nacional de hoje anda meio sofrível?

– As letras são ótimas. Pelo menos eu gostei bastante. O disco é “malvado e sujo”, como o próprio Miklos definiu. Os ouvidos mais atentos vão conseguir detectar uma forte influência da banda inglesa de pós-punk Gang of Four na ótima Não Pode, que fala das “proibições do dia a dia”. Também dá pra sacar a influência de Tony Iommi e seu Black Sabbath na empolgante versão de Canalha, que foi gravada originalmente por Walter Franco. A 1ª faixa já é um clássico na minha opinião. Chama Fardado, e critica bastante a polícia por não ter aderido aos protestos iniciados no ano passado. “Você também é explorado, fardado / Por que você não escuta o que eu digo / Não limpa as botas de terra / Não prende esse cachorro contigo / Não abre a rua e limpa essa merda!” é um trecho”.

– Gostei. Meio punk?

– Eu diria bastante punk. Aliás, todas as faixas são, umas mais outras menos, mas sempre seguindo uma linhagem de bateria, guitarra, baixo e vocais extremamente crus, raramente pontuados por teclado. Tem uma faixa chamada Fala, Renata, que mete o pau naquelas pessoas que não param de falar e não tem nada a dizer: “Pára de falar, pára, pára de falar / Pára, pára de falar / Pára, pára de falar / Luciana, Assunção, João Luiz… Cala essa boca! / Fica quieto porra…”. Tu conhece alguém assim, Dan?

– (gargalhadas) Como não lembrar da Ju, cara?

– Ah, não fala da Ju, vai. Eu gosto dela, além de ser muito gostosa e ter bom gosto musical, algo que eu valorizo muito. Você sabe que eu tenho uma paixonite por ela e ainda não me conformo de ela estar namorando o Ricardo. Falando nisso, pede mais uma pro garçom aí, vai. Quero continuar a falar dos Titãs.

– Ah, Dipa, o Rica nem leva ela a sério, tu sabe e …

– Tá bom, vira o disco vai J. De verdade, não quero mais falar dela. Voltando aos meus amigos Titãs, tem uma outra música nesse disco bem suja, chamada Pedofilia. Saca só a pegada da letra: “Vem aqui, vamos nos conhecer/Vem aqui, fica aqui do meu lado no escuro / Eu prometo cuidar de você / Não sou eu mais em mim / Não sou eu mais / Sou só nojo de mim / Só nojo, por dentro / Não sou eu mais em mim / Não sou eu mais / Sou só nojo de mim / Só esquecimento”.

– Dá raiva, cara. Puta que pariu.

– E mais para o final, o Miklos canta Baião a dois, bem na linha non-sense. Vai assim: “Mundo pequeno / Vida curta / Combinaram no dia de São Nunca / Ele cianureto / Ela cicuta / Brindaram o momento / Dois filhos de uma puta”. Aí fecha com a ótima Quem são os animais, que critica qualquer espécie de racismo ou preconceito: “Te chamam de viado / E vivem no passado / Te chamam de macaco / Inventam o teu pecado / Te julgam pela cor da tua pele / Te insultam e te condenam a penar / Te julgam pela roupa que vestes / Te humilham e não te deixam falar”.

– Meu, quero comprar esse disco agora. Aliás, nem vou baixar. Ouvindo você falar, essas letras, o conceito do disco, faço questão de comprar.

– Faça isso cara. Eu to torcendo pra que lancem também em vinil.

– Pois é, vinil tem todo aquele lance mais classudo, refinado. Falando em refinamento, olha quem tá chegando cara …

– Caralho, a Ju. Por que será que ela tá sozinha?

– Por que ela é igual a essa Renata da música que tu falou aí. Fala pra caralho. Simples assim.

– Para com isso …

– Ué, você mesmo mudou de assunto quando começamos a falar dela. Tá maluco? Quer continuar a falar sobre ela agora?

– Pois é. Ih, ela tá vindo pra cá.

– Dipa, to indo lá fora fumar e vou deixar vocês dois sozinhos. Ela fala demais da conta. Ah, rapidinho, antes de eu sair, que nota você dá para o disco?

nota5-critica

Ouça abaixo a playslist de audio com todas as faixas do álbum na íntegra e veja se concorda com o Rafa 🙂

Na sequência, o tracklist e a capa do disco.

01. “Fardado” (Sérgio Britto/Paulo Miklos)
02. “Mensageiro da Desgraça” (Paulo Miklos/Tony Bellotto/Sérgio Britto)
03. “República dos Bananas” (Branco Mello/Angeli/Hugo Possolo/Emerson Villani)
04. “Fala, Renata” (Tony Bellotto/Paulo Miklos/Sérgio Britto)
05. “Cadáver Sobre Cadáver” (Paulo Miklos/Arnaldo Antunes)
06. “Canalha” (Walter Franco)
07. “Pedofilia” (Sérgio Britto/Paulo Miklos/Tony Belloto)
08. “Chegada ao Brasil (Terra à Vista)” (Branco Mello/Emerson Villani/Aderbal Freire)
09. “Eu Me Sinto Bem” (Tony Bellotto/Sérgio Britto/Paulo Miklos)
10. “Flores Para Ela” (Sérgio Britto/Mario Fabre)
11. “Não Pode” (Sérgio Britto)
12. “Senhor” (Tony Bellotto)
13. “Baião de Dois” (Paulo Miklos)
14. “Quem São os Animais?” (Sérgio Britto)

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Rodrigo Cunha96 Posts

Publicitário, geek, louco por cinema, música, games, livros e boas idéias nas horas vagas e não vagas. Tem medo de fazer compras em NY e beber num PUB de Londres e nunca mais voltar.

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