A busca incessante pela complexidade

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O ser humano, um ser racional, busca entender os motivos para todos os acontecimentos ao seu redor. Essa busca pode ser feita através de estudos aprofundados ou mesmo através de simples explicações de fatos sem comprovação alguma. Acreditar em algo é também, para muitas pessoas, explicá-lo. Não pretendo comentar acerca da fidedignidade dessas explicações, que para nós não é importante nesse momento.

O meu foco nesse texto será refletir acerca de como ocorrem essas explicações e principalmente porque tendemos a explicar alguns fatos, principalmente os fatos de nossas vidas, ou seja, as experiências que passamos, através de respostas complexas e mirabolantes. Portanto, pretendo elencar os principais motivos de transformarmos um fato simples da vida, que poderia ser facilmente resolvido, em algo mais complexo, dificultando o real entendimento e dificultando também da nossa vida e a forma como lidamos com o fato em específico.

A complexidade traz conforto.

Eu estou pensando nos fatos simples, nos problemas cotidianos que todos vivenciamos. A diferença realmente é em como nós lidamos com esses fatos e quais sentimentos emergem em relação aos mesmos. Dessa forma, transformar algo simples em algo completamente complexo, como se não houvesse explicação para o que aconteceu, é conseguir confortar-se e não enfrentar realmente o problema.

Por exemplo, digamos que cometemos um erro terrível e por esse erro alguém acabou se machucando. É muito difícil para algumas pessoas perceberem que se elas não tivessem cometido esse erro, ou se tivessem levado sua atividade mais a sério, o erro não teria sido cometido e o outro não teria se ferido.

É mais cômodo elaborarmos explicações complexas a respeito do porque erramos (nos livrando assim da culpa) e tentar fazer com que o outro acredite nessa nossa explicação (as vezes são até explicações sobrenaturais). Assim acabamos evitando de ter que lidar com a responsabilidade de nossos atos.

A explicação complexa evita frustrações.

Em alguns casos, uma explicação simples seria o suficiente para entendermos um fato de nossas vidas, principalmente os fatos mais dolorosos. Ao mesmo tempo em que essa explicação possa fazer com que tenhamos que lidar com os sentimentos de culpa e de arrependimento do que ocorreu.

Da mesma maneira que a explicação complexa pode fazer com que deixemos de lidar com as consequências dos nossos atos, ela também faz com que evitemos a frustração. Quando criamos expectativas positivas a respeito de uma fato negativo (eu errei mas a culpa não foi minha), nós não refletimos sobre o nosso erro e voltamos a executar esse mesmo comportamento, sem lidar com a frustração de ter errado e de sermos culpados por alguém ter se ferido.

Tendemos a evitar o óbvio.

Nós somos tão cobrados a termos um raciocínio lógico, a criarmos opiniões sobre as coisas sem nos deixar influenciar, que acabamos as vezes também evitando o pensamento óbvio, ou ainda acreditamos que por ser tão óbvio desse ser errado ou simplista. Não quero defender que devamos sempre pensar no óbvio como algo negativo, pois como todas as coisas ele também é relativo.

Porém, existem alguns momento que devemos creditar o óbvio para podermos chegar à alguma conclusão. Existem comportamentos com maiores probabilidades de terem consequências negativas, enquanto outros têm maiores probabilidades de consequências positivas, dessa forma, é certo que os comportamentos mais prováveis irão ocorrer, ou seja, o óbvio.

Portanto, para tentarmos justificar um comportamento pelo qual nós sabíamos anteriormente que iria ter uma consequência negativa, acabamos utilizando a complexidade para faze isso. Ao deixarmos algo mais “complexo”, queremos deixar claro que as coisas são mais difíceis do que parecem. Mas nem sempre isso é realmente verdade.

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As vezes realmente não queremos entender algo.

Geralmente, a principal maneira de utilizarmos da complexidade, principalmente nos fatos mais dolorosos da nossa vida (que não estamos prontos para refletir sobre eles), é realmente para fingir que não entendemos realmente o que aconteceu, assim não precisamos lidar com o fato. Isso ocorre muito em situações em que pensamos: “eu sei que isso aconteceu mas não consigo lidar com isso agora”.

Dessa forma, a explicação complexa é a melhor maneira de não lidarmos com algo e acreditarmos, pois assim estaremos nos convencendo, que não somos capazes de entender algumas experiências pelas quais vivenciamos.

Saber disso, é começar a entender como lidamos com alguns de nossos comportamentos e principalmente como evitamos lidar com muitos aspectos de nossas vidas. O problema é que quanto mais situações não “trabalhadas” ou refletidas, mais difícil será para nos tornarmos pessoas melhores e desenvolvidas. Evitar lidar com as situações é ficar estagnado, incapacitando o seu próprio desenvolvimento.

Meu objetivo não foi banalizar a complexidade (que é também necessária), tampouco vangloriar ou deixar as coisas mais simplistas. Mas sim, demonstrar que nem tudo na vida é tão complexo como imaginamos e que as vezes, nós mesmos é quem dificultamos as coisas. A vida não é difícil, nós é quem geralmente dificultamos ela.


Leonardo Luchetta459 Posts

É psicólogo e redator de conteúdos. Escreve, reflete e pesquisa sobre os mais variados temas. Não considera a escrita como trabalho, mas uma necessidade da alma.

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